Alejandro parou subitamente no meio do passeio movimentado da Avenida Presidente Masaryk, no coração pulsante e luxuoso de Polanco, a zona mais exclusiva da Cidade do México. O sol do fim de tarde refletia-se nas montras das lojas de grife internacionais, mas ele sentiu o sangue gelar nas veias. O som estridente dos cláxones do trânsito caótico e a música alta que vinha dos autocarros pareceram desaparecer por completo. O seu olhar fixou-se na calçada oposta. O coração falhou 1 batida quando reconheceu aqueles olhos escuros e cansados no rosto sujo de Catalina. Valeria, a sua noiva elegante, apertou-lhe a mão com força, visivelmente incomodada com o cheiro a lixo e a fumo de escape que vinha das barracas de lona espalhadas perto da esquina.

Alejandro não se moveu. Sabia instintivamente que a sua próxima decisão mudaria tudo para sempre. As 2 meninas agarravam-se ao casaco encardido e rasgado da mãe. Anita, com 6 anos, apontava discretamente para o homem de fato impecável. Betina, com 5 anos, escondia metade do rosto atrás da perna frágil de Catalina. Os bebés gémeos, Mateo e Diego, de 1 ano e meio, estavam sentados num pedaço de cartão molhado, batendo as mãozinhas no chão sujo, completamente alheios à tensão insuportável que tomava conta do ar denso da capital mexicana.

O semáforo piscou para vermelho, os carros buzinavam impacientes atrás dele, mas Alejandro não conseguia dar 1 único passo. 6 anos de sucesso absoluto nos negócios de exportação de agave, dinheiro infinito, viagens pela Europa e festas em iates desapareceram num único segundo diante daquela imagem que lhe partia o peito ao meio. Catalina desviou o olhar primeiro, puxando os 4 filhos para mais perto, como se precisasse de os proteger de 1 estranho perigoso.

Ela não disse nada, apenas respirou fundo, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair pelo rosto pálido. Valeria soltou a mão de Alejandro e cruzou os braços. O desconforto estava estampado no seu rosto perfeitamente maquilhado. O silêncio entre todos era incrivelmente pesado, carregado de anos de ausência e mágoa, até que Alejandro finalmente conseguiu soltar o ar dos pulmões e dar 1 passo hesitante em direção à família que abandonara no passado.

“Catalina…” a voz de Alejandro saiu rouca, quase inaudível no meio do barulho ensurdecedor do trânsito. Mas ela ouviu perfeitamente e fechou os olhos por 1 instante, como se aquele som fosse 1 punhalada física.

Valeria apertou o braço dele com força, as unhas bem feitas cravando no tecido caro do terno importado. “Alejandro, isto é loucura,” sussurrou Valeria entre os dentes afiados. “Vamos chegar atrasados ao jantar com os investidores imobiliários. Esta gente cheira mal, não te mistures com mendigos na rua.”

Mas Alejandro não ouvia nada além do som do próprio coração a bater descompassado nos ouvidos. Os seus olhos estavam fixos na pequena cicatriz na testa de Anita, a exata mesma marca que ela fez quando caiu do berço aos 2 anos de idade. 1 cicatriz que ele beijou centenas de vezes antes de abandonar tudo. Catalina tentou recuar, arrastando os pés descalços no asfalto frio, puxando as meninas para trás e cobrindo a cabeça de Mateo com a mão suja.

“Não te aproximes, Alejandro. Por favor, vai-te embora. Não tens o direito de estar aqui,” falou ela baixo, a voz rouca de quem não bebe água limpa há muitas horas.

Anita apontou com o dedinho sujo. “Mamã, quem é este senhor tão bem vestido?” perguntou a menina de 6 anos, sem saber que olhava para o próprio pai. Betina escondeu-se completamente, observando com a desconfiança de quem aprendeu cedo que as ruas são perigosas.

“Como assim ir embora?” Alejandro gritou, não de raiva, mas de 1 desespero cru que fez as pessoas no passeio diminuírem o passo. “Catalina, o que está a acontecer? Onde está a nossa casa em Coyoacán? Onde estão os 50000 pesos que eu mando todos os meses?”

Valeria soltou 1 risada seca e nervosa, pegando no telemóvel na mala de couro para chamar o motorista privado. Catalina levantou o rosto e Alejandro viu 1 dor tão profunda que precisou de desviar o olhar. “Que dinheiro, Alejandro? Tu nunca mandaste 1 único centavo depois de assinares os papéis do divórcio. Desapareceste.”

O sangue drenou do rosto de Alejandro. As pernas ficaram bambas. Ele tinha a certeza absoluta de que todos os meses saíam 50000 pesos da sua conta para o fundo que o advogado Roberto administrava. Ele olhou para os bebés no cartão húmido. Os olhos castanhos eram idênticos aos dele.

“Estes bebés…” apontou ele a tremer. “Faz 2 anos que estive naquela casa…”

“São teus,” disse Catalina, abraçando o corpo. “Descobri a gravidez 1 mês depois de ires embora. Fui ao teu escritório, mas barraram-me a entrada.”

Valeria colocou-se à frente dele. “Meu amor, é 1 golpe óbvio. Isto é teatro. Vamos embora.” Mas Alejandro empurrou-a para o lado, ajoelhando-se na água suja da sarjeta à altura de Anita.

“És o meu papá?” perguntou a menina. Alejandro chorou, tocando o rosto dela. Betina deu-lhe 1 tapa fraco. “És mau! A mamã chorou por tua causa!”

Alejandro levantou-se num salto, virando-se para Valeria que falava ao telemóvel. “Desliga isso agora! Estás a ver os meus filhos a passar fome? Se disseres mais 1 palavra, vais a pé.” Pela primeira vez em 2 anos de namoro, Valeria sentiu medo. Alejandro virou-se para Catalina. “Vocês vêm comigo agora.”

Valeria gritou com nojo. “Se meteres esta gente no meu carro de luxo, acabou tudo! Escolhe!”

Alejandro olhou para o carro preto que acabara de parar, depois para o rosto frio de Valeria e, finalmente, para os olhos sofridos de Catalina. O silêncio durou exatos 3 segundos. Não é possível acreditar no que está prestes a acontecer…

PARTE 2

“António, abre o porta-bagagens e guarda as coisas delas,” ordenou Alejandro com 1 voz inabalável que ecoou pela rua de Polanco. Depois, virou-se para Valeria, tirando a chave do luxuoso apartamento do bolso. “Valeria, a chave está comigo. Amanhã mandarei as tuas coisas para a portaria. Podes ir a pé.”

Sem esperar resposta, ele ajudou Catalina a entrar no banco de trás do carro de luxo. Ela hesitou antes de sentar, com medo de sujar os estofos impecáveis. “Que se lixe o carro, Catalina. Entra,” insistiu ele, colocando os 2 bebés ao lado dela e apertando os cintos com mãos trémulas. As 2 crianças mais velhas olhavam maravilhadas para o interior do veículo, tocando nos botões iluminados como se estivessem numa nave espacial. Alejandro sentou-se na frente e fechou a porta, deixando Valeria paralisada no passeio, a gritar insultos furiosos que o vidro grosso abafou.

Enquanto o carro arrancava pelas avenidas iluminadas da Cidade do México, Alejandro pegou no telemóvel e ligou para Rafael, o seu novo e leal advogado. “Rafael, preciso que encontres o Roberto agora mesmo. Bloqueia todas as contas dele e contacta as autoridades federais. Ele roubou a minha família durante os últimos 6 anos.” Desligou e olhou pelo retrovisor. Catalina limpava o rosto de Bernardo silenciosamente.

“Para onde nos levas?” perguntou Catalina, o pânico ainda evidente na sua voz.

“Para 1 hotel primeiro. Vocês precisam de banho, comida e descanso. Depois resolverei tudo.”

No hotel de 5 estrelas, a recepcionista olhou com estranheza para as roupas esfarrapadas, mas reconheceu o milionário imediatamente. “Preciso da suite presidencial no 12º andar. E mandem subir comida. Muita comida: frango assado, arroz, feijão, tortilhas, sumos, tudo o que for mais nutritivo. E mandem alguém comprar roupas limpas para 5 crianças e 1 mulher adulta. O preço não importa.”

Quando as portas do elevador se abriram no corredor luxuoso, as meninas ficaram boquiabertas. O espaço da suite era colossal, com 4 quartos e janelas do chão ao teto mostrando a cidade. Catalina tocou no sofá branco com extremo cuidado. Minutos depois, o cheiro a comida invadiu a suite. Anita e Betina sentaram-se no chão, comendo pedaços de carne com as mãos trémulas de fome. Alejandro preparou 1 prato cheio para Catalina e forçou-a a comer.

Após a refeição, a banheira de mármore encheu-se de água quente e espuma. As 2 meninas brincaram na água pela primeira vez em meses, rindo alto. Catalina observava da porta, com lágrimas a escorrer pelo rosto magro. “Eu não conseguia dar-lhes isto… Eu tentei, Alejandro.”

“A culpa não é tua, é inteiramente minha,” respondeu ele, tocando suavemente no ombro dela. Enquanto as meninas terminavam, Alejandro deu banho aos 2 gémeos no lavatório. Mateo chorou no início, mas Diego ria ao bater na água quente. Alejandro sentiu 1 facada no coração ao ver as marcas de picadas de insetos e a magreza dos seus filhos de 1 ano e meio.

Com todos limpos e a vestir roupas novas, as crianças espalharam-se pelas camas macias. Alejandro sentou-se exausto no sofá. O telemóvel tocou. Era Rafael com notícias urgentes e devastadoras. “Alejandro, o Roberto foi detido no aeroporto. Mas há mais… encontrei e-mails entre ele e a Valeria. A Valeria estava envolvida no desvio dos 50000 pesos mensais. Eles eram amantes. O plano era esvaziar a tua fortuna e deixar a tua família na miséria.”

O chão desapareceu sob os pés de Alejandro. A mulher que ele ia desposar ajudara a roubar os seus filhos. A raiva ferveu-lhe no sangue. Ele desligou o telemóvel e contou a verdade a Catalina. Ela não demonstrou surpresa, apenas 1 cansaço infinito. “Eu sabia que ela era falsa,” murmurou Catalina.

Nos dias que se seguiram, a vida sofreu 1 transformação radical. Visitaram 4 apartamentos até que Anita se apaixonou por 1 cobertura gigantesca com vista para 1 parque verdejante. Alejandro pagou 6 meses adiantados sem pestanejar. A mudança foi rápida, pois não tinham mobília antiga, apenas as roupas novas e a esperança de 1 recomeço.

A verdadeira provação chegou durante a consulta médica. O Dr. Marcelo examinou as 4 crianças durante 2 horas. A expressão do pediatra era sombria. “A situação é crítica. Mateo tem anemia severa e atraso motor por falta de nutrição. Diego tem 1 infecção de pele grave. As 2 meninas estão muito abaixo do peso e com o sistema imunológico em colapso. Precisam de cuidados intensivos nos próximos 6 meses.”

Alejandro sentiu cada palavra como 1 murro no estômago. Naquele momento, tomou a decisão mais importante da sua vida. Cancelou reuniões, transferiu a gestão da empresa para os sócios e montou 1 pequeno escritório no apartamento. Durante semanas, Alejandro trabalhou a partir de casa. Ele acordava às 5 da manhã para preparar pequenos-almoços nutritivos, administrava os medicamentos exatos às 10 da manhã e às 6 da tarde, dava banhos e trocava fraldas.

Mas a paz foi ameaçada numa tarde chuvosa. O porteiro ligou a avisar que Valeria estava na recepção, aos gritos, exigindo subir. Ela pagara 1 fiança altíssima e estava em liberdade provisória. Alejandro desceu ao saguão com os punhos cerrados. Valeria avançou como 1 fera ferida, com o rosto abatido mas furioso.

“Destruíste a minha vida! Bloquearam o meu dinheiro! Fui vítima do Roberto!” gritou ela.

Alejandro parou a 2 metros dela, frio e implacável. “Tu planeaste cada golpe. Sugeriste deixá-los na rua para poupar despesas. Aquela mulher que chamas de mendiga sustentou 5 pessoas no inferno enquanto tu roubavas o leite dos bebés dela. Se te aproximares da minha família mais 1 vez, gastarei cada centavo dos meus milhões para garantir que apodreces na prisão pelo resto da tua vida.” Valeria recuou, aterrorizada com a escuridão nos olhos dele, e fugiu para o trânsito da cidade, desaparecendo para sempre.

A rotina curativa continuou. Betina, de 5 anos, foi matriculada numa escola excelente, mas o trauma do abandono fê-la entrar em pânico no primeiro dia. Chorou copiosamente, agarrada à perna de Alejandro. Ele não hesitou: pediu licença, sentou-se numa cadeirinha de plástico no fundo da sala de aula e ficou lá durante as 6 horas do dia escolar, respondendo a e-mails no telemóvel, apenas para provar à filha que o seu pai nunca mais desapareceria.

O momento mais assustador ocorreu no inverno, quando Anita de 6 anos acordou aos gritos com febre de 40 graus. No hospital particular, ela delirava, chamando pelo pai que no passado nunca estava lá. “Papá, não vás embora,” chorava ela. Alejandro não arredou pé. Permaneceu acordado durante 48 horas seguidas na poltrona do hospital, segurando a mão pequena dela durante as injeções intravenosas. Quando a febre finalmente cedeu, Anita abriu os olhos e sorriu fracamente. “Amo-te muito, papá.” Alejandro desabou a chorar sobre a cama, limpando finalmente a alma de toda a culpa.

1 ano exato passou desde aquele fatídico encontro no passeio. A transformação da família era um autêntico milagre. Os bebés gémeos corriam saudáveis pela cobertura; as meninas riam confiantes e seguras. Catalina concluíra 1 curso técnico noturno e a casa transbordava de vida.

No aniversário de 7 anos de Anita, organizaram 1 festa linda. Na hora de soprar as velas, a menina puxou Alejandro e Catalina para o seu lado. “O meu desejo é que vocês fiquem sempre juntos,” sussurrou ela.

Na calada dessa noite, depois de a casa mergulhar no silêncio, Catalina foi ter com Alejandro à varanda. A cidade brilhava intensamente lá em baixo.

“Alejandro,” começou ela, a voz carregada de 1 emoção profunda. “Lembras-te daquela pergunta que te fiz sobre o momento em que decidiste que a tua liberdade valia mais do que nós?”

“Lembro-me de cada palavra,” respondeu ele com humildade.

“Hoje tenho outra pergunta,” disse Catalina, olhando-o nos olhos com a força de 1 mulher que renasceu das cinzas. “Quero saber se entendes que, a partir de agora, a tua maior e única liberdade é estares aqui dentro, preso para sempre ao compromisso que assumiste com cada 1 de nós. Porque se não entenderes isso completamente, não mereces estar aqui.”

Alejandro sorriu com a leveza de 1 homem redimido. “Eu vivia vazio, Catalina. Hoje, prisioneiro do amor por vocês, sinto-me 100 vezes mais livre do que alguma vez fui. Eu escolho esta prisão para a eternidade.”

Catalina sorriu, 1 sorriso genuíno que iluminou a noite. Pela primeira vez em mais de 6 anos, Alejandro segurou o rosto dela e beijou-a suavemente, selando 1 pacto inquebrável. O milionário que outrora perdeu tudo por egoísmo percebeu finalmente que a sua fortuna incalculável não estava nos bancos, mas sim a dormir tranquilamente nos 4 quartos daquele apartamento.